Segue a abaixo um texto que escrevi na última semana. Esse texto é um resumo da minha visão musical atual. Não quero com ele cataquizar ninguém. Críticas e cometários são bem vindos.
ERUDITO X POPULAR
O Nascimento de um novo músico? E uma nova música?
A classificação de determinada música como erudita ou popular depende de algumas características fixadas por padrões nada fixos. Parâmetros como o conteúdo histórico, a complexidade ou a ideologia por trás de uma obra são exemplos de tentativas de criar essa divisão entre popular e erudito, que ainda assim é tênue, confusa e, por vezes, até controversa.
Para exemplificar podemos fazer algumas observações simples no que tange à complexidade: Uma letra de Chico Buarque como, por exemplo, em Joana Francesa onde o autor mistura palavras em português e francês gerando um jogo de fonemas cacofônicos que dão margem a diversas interpretações. Um lied de Schubert possui complexidade harmônica e melódica semelhante a canções de Tom Jobim. O choro, gênero tipicamente brasileiro, possui contrapontos que remetem a música barroca. A complexidade rítmica presente na música de Arrigo Barnabé ou mesmo as harmonias do compositor carioca Guinga equiparam-se por vezes as de nomes como Debussy e Stravinsky. Essas observações não têm a intenção de comparar a qualidade muito menos o valor das obras e compositores citados, mas por outro lado mostrar quão confusa pode ser essa classificação, se tomarmos como referência o nível de complexidade geral ou de elementos de uma obra para análise. Classificar compositores como Astor Piazzolla, George Gershwin, Radamés Gnattalli ou mesmo Egberto Gismonti torna-se uma tarefa quase impossível.
Por mais difícil que seja essa tarefa – a de classificar músicas entre populares e eruditas – o fato é que essa divisão existe na prática e não pode ser ignorada. Tentarei elucidar temas como a construção da composição, o material primário utilizado, o legado histórico e o comportamento dos músicos ante a música. Muito provavelmente esses temas virão intrinsecamente ligados e será desnecessário desassocia-los.
A história da música está ligada inevitavelmente à história da humanidade pelo simples fato de a música ser uma atividade exclusivamente humana. (Entende-se música pela ordenação consciente dos sons, quer seja ela inteligível, agradável, confusa, intensa, suave, ou qualquer outro adjetivo que a ela se encaixe. Consciente, pois se não fosse assim qualquer ruído poderia ser entendido como tal, o que não exclui o uso do ruído na música, desde que esse uso seja consciente e intencional.) Estando a música sempre ligada a história das civilizações, os registros musicais mais antigos são justamente produto da evolução humana através da criação da escrita. Os primeiros registros são desenhos; em seqüência textos ou fragmentos que tentam descreve-la; por fim o surgimento da escrita musical somente no fim da idade média permite que se tenha alguma idéia real de como era essa música. Mas já nesses registros musicais primitivos começam a aparecer divisões entre o que é popular e o que é culto, pois os detentores da linguagem escrita são até então membros de entidades poderosas em seu tempo: a igreja ou o estado. Portanto pode-se falar de uma história antiga na música erudita, mas pouco se sabe sobre como era a música do povo. O fato de existirem culturas dominantes e dominadas gera a necessidade de negação entre elas que se reflete musicalmente na busca de marcantes diferenciações na busca por originalidade e autenticidade. Essa hipótese leva diretamente a outra: o uso consciente ou não de materiais primários antagônicos afirmaria ainda mais essas diferenças. Mas então o que dizer dos compositores nacionalistas no século XX? Neste ponto encontra-se uma resposta bastante esclarecedora. Os nacionalistas aproximam os campos, mas apenas por um lado – o uso do mesmo material, isto é, tanto “eruditos” como “populares” neste período fazem uso do mesmo conjunto folclórico de melodias, ritmos e outros materiais, mas com tratamentos extremamente diferentes, além de já haver dos dois lados práticas fundamentadas de formas distintas onde a postura do músico ao interpretar qualquer obra depende de sua formação muito mais do que do material primário em que esta se baseia.
O momento da execução musical reserva características distintas quanto a práxis de cada âmbito, sendo estabelecidas primeiramente pelo local de apresentação, as condições e possibilidades técnicas e também pelo comportamento do público. Além disso, as posturas são bem pronunciadas, pois na música erudita é necessário que o músico realize o trabalho de interpretação da partitura profundamente antes de se apresentar, deixando para o momento final apenas a adrenalina do momento, visto que essa obra já foi executava diversas vezes antes de formas bastante próximas visando encontrar a interpretação ideal. Já na música popular o comportamento é bastante diferente porque, especialmente no jazz, é de praxe não combinar os improvisos, já que são improvisos! Têm-se apenas as informações básicas para o que vai acontecer, nesse caso o tema. Em outros casos é necessário que o músico interaja muito com os outros executantes, pois mesmo sem haver seções completas de improviso a escrita por meio de cifras permite diversas interpretações. O cuidado com detalhes técnicos e interpretativos também é um diferencial a ser notado, especialmente no que se refere à precisão, controle dinâmico, variações de timbre e qualidade sonora extraída do instrumento.
Uma das tendências da música popular contemporânea é, já há algum tempo, a de “digerir” elementos da música erudita, sejam eles composicionais ou interpretativos. A música popular tem encontrado em estruturas que já foram amplamente usadas na música erudita a possibilidade de alçar novos vôos e trazer fôlego novo ao ambiente popular. Além disso, muitos intérpretes com formação erudita têm se aplicado a tocar música popular, o que trouxe um significativo aumento técnico para os interpretes. Aqui cabe uma ressalva. Não é o simples fato de estudar um instrumento com repertório e técnicas eruditos que traz ao interprete a qualidade necessária para executar música popular. Esta, por outro lado, exige do músico conhecimentos específicos de linguagem, quer seja no choro, samba, jazz ou qualquer outro gênero. Mas, o domínio técnico do instrumento e de suas possibilidades trouxe um maior refinamento ao ambiente popular. No violão existem muitos exemplos, começando por nomes que fizeram a transição para um violão que pode ser chamado de moderno como Laurindo de Almeida, Garoto e Baden Powell, tanto quanto os “modernos”: Raphael Rabello, Paulo Bellinatti, Marco Pereira, Guinga e Ulisses Rocha. Todos conhecedores profundos das possibilidades do instrumento e alguns até com carreiras no âmbito erudito também. Todos esses músicos atuam ou atuaram em gêneros populares diferentes e, ao mesmo tempo, é muito difícil classificar como exclusivamente populares estes chamados “modernos”, e por outro lado não se enquadram como músicos eruditos.
É então, que acredito que começa a surgir uma nova música calcada nas duas tradições e que é diferente de ambas sem deixar de pertencer a elas. É claro e muito compreensível que os músicos dessa tendência – se é que assim ela realmente pode ser chamada – não sejam impecáveis tanto na música popular quanto na erudita e possuam carreiras grandiosas em qualquer dos lados. Só o tempo poderá confirmar, mas é, para mim, cada vez mais claro que mudanças estão ocorrendo, sem que o passado seja apagado; cada vez é menor a tendência a movimentos e quebras drásticas; cada vez mais a visita ao passado musical mostra portas ainda entreabertas e caminhos pouco caminhados. Talvez haja mais evolução do que revolução para acontecer.